A CipSoft anunciou recentemente o banimento de 1.417 contas envolvidas no uso ilegal de software para automatizar farm dentro de Tibia. Os servidores mais afetados incluem Yara, Calmera, Celesta, Bona, Belobra, Antica, Nevia, Harmonia e Vunera. Embora essa onda de banimentos demonstre que a empresa continua lutando contra a automação ilegal, uma análise mais profunda desses casos revela um cenário preocupante: pela primeira vez em anos, parece que estamos perdendo esta batalha.
A história da luta contra bots em Tibia é longa e turbulenta. Nos tempos áureos de programas como Elfbot, NG Bot e similares, a situação era caótica até a implementação do BattlEye em 2017, o sistema anti-cheat que revolucionou a segurança do jogo. O BattlEye foi extremamente efetivo em eliminar aqueles bots mirabolantes que faziam literalmente tudo sozinhos. Porém, o que começou como “apenas um macro simples” para pegar itens de imbuing evoluiu para algo muito mais sofisticado e perigoso.
A Evolução Preocupante dos Bots
O perfil dos personagens banidos revela uma mudança significativa no cenário. Não estamos mais falando apenas de bots em spawns básicos caçando criaturas de low level. A análise dos dados mostra uma presença massiva de personagens de mid game e até mesmo high level envolvidos em automação.
Ao ordenar a lista de banidos por level, casos alarmantes surgem. O personagem de level mais alto em um dos servidores estava realizando hunts focadas em farm de dinheiro, incluindo spawns populares como Where Lions e Pirates. Mas o mais perturbador não é apenas o level alto – é o tempo que esses personagens operaram sem serem detectados.
Um caso específico ilustra perfeitamente a gravidade da situação: um personagem de level 791 que foi deletado estava botando desde setembro de 2023. Isso significa aproximadamente dois anos de operação automatizada. Durante esse período, o personagem evoluiu de Carnivors para Where Lions, passando por diversos spawns lucrativos. A pergunta que fica é: quanto dinheiro esse jogador acumulou antes de ser finalmente pego? E mais importante: será que esse banimento realmente o afetou, ou ele simplesmente comprará outro personagem e recomeçará?

Um Padrão Sistemático e Lucrativo
Infelizmente, este não é um caso isolado. Analisando outros personagens da lista de banidos, o padrão se repete consistentemente. Outro personagem estava realizando a mesma rotina de hunts automatizadas em Where Lions e Pirates, com histórico que remonta a janeiro de 2025, possivelmente operando há um ano completo.
Um terceiro caso mostra um personagem que começou caçando normalmente em Infernalists, mas ao atingir level 504 iniciou uma rotina automatizada em Carnivors e Furies de Oramond. Este personagem começou suas atividades ilícitas em fevereiro do ano anterior, totalizando um ano inteiro de farm automatizado antes de ser detectado.
O Problema da Velocidade de Resposta
A CipSoft e o BattlEye estão indubitavelmente lutando contra essa praga – 1.417 contas banidas são prova disso. No entanto, quando o processo de detecção se torna quase totalmente automático, dependendo de algoritmos para identificar padrões suspeitos, o sistema se torna inerentemente reativo e lento.
Esta é essencialmente uma batalha entre desenvolvedores: de um lado, aqueles criando automações cada vez mais sofisticadas tentando burlar o sistema; do outro, os desenvolvedores do anti-cheat tentando detectar e bloquear essas novas técnicas. Com a tecnologia evoluindo exponencialmente, estar no lado da defesa se torna progressivamente mais difícil.
O ciclo vicioso é claro: desenvolvedores de bots criam novas técnicas → alguns jogadores as utilizam → após meses ou anos, o BattlEye detecta o padrão → banimentos acontecem → novos métodos são desenvolvidos. Durante todo esse período, os infratores acumulam recursos suficientes para compensar múltiplas vezes o custo de um novo personagem.
A Ausência da Verificação Manual
Uma questão importante emerge neste contexto: em uma era onde a CipSoft demonstra estar cada vez mais receptiva à comunidade, por que não existe mais verificação manual em algum estágio do processo? Os famosos Game Masters, que faziam rondas verificando jogadores suspeitos, parecem ter sido completamente substituídos por sistemas automáticos.
Uma verificação manual não precisaria necessariamente ter poder de banimento imediato para evitar erros humanos, mas poderia servir como uma camada adicional de detecção. Game Masters observando comportamentos suspeitos poderiam encaminhar casos ao BattlEye para análise mais profunda dos sistemas utilizados.
O Esconderijo Perfeito: Servidores Dominados
A situação se complica ainda mais quando consideramos onde esses bots operam. Muitos se escondem em servidores dominados ou com população extremamente baixa. Em um servidor retro hardcore dominado por uma única guild, quem reportará quem? Em spawns protegidos por guilds em servidores Open PvP, a situação é similar.
Quem vai entrar em um spawn remoto em um servidor vazio apenas para verificar se há bots operando? E mesmo que entre, se for membro da guild dominante, simplesmente ignorará; se não for, provavelmente nem conseguirá acesso ao local. Essa dinâmica cria zonas completamente livres de fiscalização, onde a automação pode operar praticamente sem riscos.
O Mercado de Personagens Facilita a Recorrência
Antigamente, quando um bot era banido, o infrator precisava começar do absoluto zero. Hoje, com o bazar de personagens, o processo é infinitamente mais simples. O jogador banido simplesmente acessa o bazar, compra um personagem com level adequado e no dia seguinte já está operando novamente nos mesmos spawns lucrativos.
Considerando que muitos desses bots operam por um ou dois anos antes de serem detectados, o lucro acumulado nesse período é suficiente para comprar três, quatro ou até cinco personagens de reposição. O banimento deixa de ser uma punição efetiva e se torna apenas um custo operacional dentro de um negócio altamente lucrativo.
Um Cenário Preocupante Para o Futuro
O impacto dessa situação na economia e na integridade do jogo é profundamente negativo. Enquanto jogadores legítimos dedicam tempo e esforço para progredir, outros acumulam recursos ilimitados através de automação, distorcendo completamente a economia do jogo e criando uma competição desleal.
Pela primeira vez desde a implementação do BattlEye, parece que estamos genuinamente perdendo a guerra contra os bots. Não porque a CipSoft não esteja tentando – os 1.417 banimentos provam o contrário – mas porque a velocidade de detecção simplesmente não acompanha a sofisticação e a lucratividade da operação para os infratores.
A questão não é mais se o BattlEye funciona, mas se ele é suficiente como única linha de defesa. A comunidade aguarda ansiosamente por novas medidas, possivelmente incluindo o retorno de alguma forma de verificação manual ou sistemas mais ágeis de detecção, antes que essa situação se torne completamente insustentável. O tempo que leva para detectar e banir esses usuários precisa diminuir drasticamente, ou continuaremos vendo o mesmo ciclo de lucro ilícito, banimento superficial e recomeço imediato.