Falar sobre o estado atual dos MMORPGs em 2026 é como observar uma faca de dois gumes. Por um lado, os gigantes do gênero nunca estiveram tão sólidos, com atualizações constantes e comunidades engajadas. Por outro, o horizonte para novos títulos ocidentais parece mais árido do que o deserto de Tanaris. É um paradoxo frustrante para quem ama esse gênero que definiu gerações de jogadores: temos muito para jogar agora, mas pouco para esperar no futuro.
A questão central é simples e brutal: dinheiro. Desenvolver um MMORPG ocidental custa entre 100 e 300 milhões de dólares, leva mais de sete anos para ser concluído e enfrenta uma das comunidades mais difíceis de satisfazer na indústria dos games. Para investidores, isso não é uma aposta arriscada, é quase suicídio financeiro. E 2025 provou isso da forma mais dolorosa possível.
Os Gigantes Continuam Reinando
Antes de mergulharmos no lado sombrio dessa história, é justo reconhecer que os MMORPGs estabelecidos estão vivendo uma era de ouro em termos de conteúdo. World of Warcraft acaba de lançar a expansão Midnight para o jogo retail, enquanto o Classic WoW recebeu o patch do Burning Crusade nos servidores de aniversário. Mas a verdadeira bomba está guardada para a Blizzcon deste ano: o tão esperado anúncio sobre o Classic Plus, que promete revolucionar a experiência clássica com conteúdo completamente novo.
Guild Wars 2 lançou Visions of Eternity no final do ano passado, trazendo novas zonas, armas para todas as classes, especializações de elite, atualizações de montarias e muito mais. O jogo continua provando que sua fórmula funciona, e as patches continuam chegando para expandir esse universo já rico.
The Elder Scrolls Online está fazendo uma transição ousada em 2026, abandonando o tradicional ciclo anual de capítulos e DLCs por uma estrutura sazonal. A mudança mais empolgante? Uma reformulação completa do combate, com overhaul em ataques, magias e animações para todas as classes, além de uma nova opção de dificuldade para o mundo aberto que finalmente atenderá jogadores que buscam mais desafio.

Albion Online está trabalhando em seu roadmap de 2026 com um novo sistema de facções focado em PvP, uma reformulação visual massiva prevista para abril que, pelas prévias, parece impressionante, lançamento para consoles Xbox e uma grande atualização com dragões programada para o verão. Black Desert Online segue firme com várias atualizações importantes já lançadas e mais chegando no verão e outono.
Final Fantasy XIV continua expandindo Dawn Trail com novas áreas, quests e dungeons ao longo de 2026, com expectativas de anúncio da versão 8.0 ainda este ano. Old School RuneScape traz a Leagues 6 em abril, com novas tarefas, relíquias, recompensas demoníacas e sistemas de maestria de combate reimaginados. No verão, acontecem as famosas enquetes comunitárias onde os jogadores votam no que os desenvolvedores devem priorizar, seguidas de grandes atualizações de conteúdo.
Até Star Wars: The Old Republic, acredite se quiser, continua recebendo updates através do ciclo de patches 7.x, com a promessa de um patch 8.0 robusto em dezembro para celebrar seu 15º aniversário.
O Cemitério de Promessas Quebradas
Se você está satisfeito jogando apenas os MMORPGs já estabelecidos, ótimo. Mas se você anseia por algo novo, por uma experiência fresca que capture aquela sensação mágica de explorar um mundo virtual pela primeira vez, prepare-se para a decepção.
O ano de 2025 foi um massacre para MMORPGs em desenvolvimento. O jogo de Warhammer da Jackalyptic Games, revelado em 2023 e desenvolvido por uma equipe repleta de veteranos do gênero, prometia entregar uma experiência AAA com combate de ação e escala massiva no universo Warhammer. Cancelado no outono quando a NetEase decidiu cortar o financiamento como parte de uma “nova estratégia de investimento”.
Project Ghost, o ambicioso projeto liderado por Greg Street (o famoso Ghostcrawler de World of Warcraft) no estúdio Fantastic Pixel Castle, estava sendo desenvolvido com transparência admirável. Eles mostravam builds em progresso, convidavam criadores de conteúdo para testar o jogo mesmo com assets faltando, queriam feedback genuíno da comunidade. Apesar de estar longe de finalizado, era possível ver o potencial de um jogo sólido. Em outubro, a NetEase cortou o financiamento completamente. O estúdio tentou desesperadamente conseguir funding de outras fontes, mas fechou as portas sem sucesso.
Quando os Sonhos Custam Caro Demais
A Amazon Game Studios estava desenvolvendo um MMORPG de Lord of the Rings até outubro, quando anunciou que reduziria sua divisão de games e interromperia todo desenvolvimento de MMORPGs, o que também significou o fim de New World.
Mas o golpe mais doloroso veio da Microsoft, que cancelou o Project Blackbird em julho de 2025. Este era um looter shooter MMO sci-fi em terceira pessoa desenvolvido pela Zenimax Online Studios, os criadores de ESO. Sete anos em desenvolvimento, supostamente a poucos anos do lançamento, com impressões positivas de quem teve acesso direto ao jogo. Nada disso importou.
E então tivemos a implosão espetacular de Ashes of Creation no início deste ano. Mesmo os maiores críticos do jogo não previam como ou quando isso aconteceria. O “projeto de paixão totalmente autofinanciado” na verdade tinha investidores externos com poder de decisão. O CEO da Intrepid ficou insatisfeito com as demandas do conselho de investidores e decidiu sair em protesto. Após sua saída, o conselho demitiu toda a equipe de desenvolvimento. Agora ninguém trabalha no jogo. Há acusações de sabotagem, chantagem, fraude, ameaças de violência física, um verdadeiro caos jurídico que levará anos para se resolver. Os servidores ainda estão online, mas o jogo está essencialmente morto, abandonado até pelos fãs mais devotos.
O Problema É Simples: Dinheiro
Cada um desses projetos cancelados tinha circunstâncias únicas, mas todos compartilham um denominador comum: dinheiro. Os jogos custavam muito para fazer, não eram vistos como valiosos o suficiente, ou eram considerados improváveis de gerar retorno financeiro adequado.
MMORPGs ocidentais custam uma fortuna para produzir. Mesmo alguém apaixonado pelo gênero, com 300 milhões de dólares disponíveis, hesitaria em investir nesse mercado. É simplesmente arriscado demais. Por que não investir no S&P 500 e deixar o dinheiro render com segurança? Faz todo sentido do ponto de vista financeiro.
Isso significa que futuros MMORPGs precisarão ser ou pesadamente monetizados desde o lançamento (combinando preço de caixa, mensalidade, cash shop, ou todos simultaneamente) para recuperar custos e gerar lucro, ou precisarão custar muito menos para serem feitos, tornando-os investimentos menos arriscados.
Começar Pequeno Para Crescer Grande
Como fazer MMORPGs mais acessíveis financeiramente? Menos tempo de desenvolvimento, equipes menores ou mais acessíveis (provavelmente fora dos EUA onde salários são mais baixos), ou jogos em escala menor, o que contradiz a própria ideia de “massivo” em MMORPG, mas pode ser um caminho viável.
Em entrevista recente, Jack Emmert e Greg Street, fundadores de dois dos estúdios cancelados, falaram sobre o futuro do gênero. Ambos destacaram a ideia de começar pequeno e crescer gradualmente, apontando Warframe como exemplo. Emmert disse: “Seria difícil para qualquer um ir a uma publisher ocidental pedir dinheiro para desenvolver um MMORPG. O histórico das publishers ocidentais com MMOs não é bom por várias razões. No entanto, há muita oportunidade de lançar um jogo que não seja necessariamente um MMO no início, mas cresça para se tornar um.”
A proposta é fazer uma série de apostas de 20 milhões de dólares ao longo de cinco a sete anos, ao invés de um investimento único de 100 milhões. Você lança um RPG multiplayer com história, adiciona componentes de mundo aberto através de atualizações ou expansões, constrói a comunidade gradualmente enquanto paga pelo desenvolvimento.
É uma ideia simples e lógica. O maior desafio é fazer com que esse produto inicial menor seja atraente o suficiente para manter jogadores engajados e financiando o desenvolvimento futuro. Warframe conseguiu, crescendo exponencialmente desde o lançamento. Mas Warframe não é exatamente o tipo de MMORPG tradicional que muitos fãs desejam. Tem hubs sociais e zonas abertas onde você encontra outros jogadores, mas não oferece a experiência de um World of Warcraft, Guild Wars 2 ou Elder Scrolls Online.
Será que World of Warcraft teria funcionado se lançasse apenas com as zonas de nível 1 a 20, masmorras como Minas Mortas e Ravina Ígnea, Garganta Brado Guerreiro, e então adicionasse gradualmente conteúdo para níveis superiores ao longo de anos? Talvez. É possível. Mas nunca saberemos com certeza.
A Escolha Entre Pouco Ou Nada
Se nossas opções são A) receber vários MMORPGs em escala menor, não tão grandiosos quanto gostaríamos, mas ainda jogos sólidos com loops de gameplay divertidos que expandem com o tempo, ou B) a realidade atual onde MMORPGs ocidentais ambiciosos são cancelados repetidamente ou nunca recebem financiamento, a escolha é óbvia. Melhor MMORPGs menores que crescem do que nenhum.
Temos alguns projetos menores em desenvolvimento: Monsters and Memories, Scars of Honor, Apogee e Stars Reach. E há jogos mirando maior escala mas provavelmente com monetização agressiva, como Chrono Odyssey, Cinder City e ArcheAge Chronicles, sendo que este último aparentemente será mais um jogo single player com mundo compartilhado.
As maiores esperanças para novos MMORPGs residem no projeto da Riot Games e no rumores sobre Guild Wars 3 ou qualquer que seja o próximo passo da franquia Guild Wars. Mas sendo perfeitamente honesto, a expectativa mais realista para os próximos anos é encontrar diversão nas atualizações e novas versões dos gigantes já estabelecidos.
É a mesma história das últimas duas décadas. Há muito a animar sobre o potencial do Classic Plus de World of Warcraft, sobre revisitar Elder Scrolls Online com suas reformulações, passar mais tempo em Guild Wars 2 e retornar a Albion Online. E sim, espera-se que nos próximos dois a cinco anos surjam novas experiências de MMORPG divertidas. Seja lá como isso pareça, qualquer coisa será bem-vinda.
O estado dos MMORPGs em 2026 é paradoxal: nunca tivemos tanto conteúdo de qualidade para jogar, mas raramente o futuro pareceu tão incerto. É uma era de ouro construída sobre fundações que ninguém mais quer replicar. E enquanto os jogadores continuam sonhando com o próximo grande mundo virtual para chamar de lar, a indústria continua calculando se esses sonhos valem o investimento.