Após seis anos de relativa calmaria, uma operação massiva de bots retornou ao Bounty Hunter do Runescape, e desta vez a organização por trás dela é assustadoramente eficiente. Uma investigação profunda revelou não apenas a escala absurda dessa fazenda de ouro, mas também os métodos engenhosos utilizados para burlar os sistemas de detecção da Jagex e gerar bilhões em GP a cada fim de semana.

O que começou como uma simples denúncia sobre accounts level 32 infestando o mundo australiano 569 se transformou em uma verdadeira operação de espionagem, revelando uma operação criminosa que movimenta quantias astronômicas de gold. Prepare-se para mergulhar nos bastidores dessa fazenda de bots que representa um dos maiores desafios enfrentados pelo Runescape nos últimos anos.

A Descoberta que Mudou Tudo

Tudo começou com uma dica aparentemente simples: o mundo australiano de Bounty Hunter, o 569, estava sendo inundado por contas level 32. Ao investigar inicialmente no Grand Exchange, parecia apenas mais um caso comum de bots, mas havia algo diferente desta vez. As contas não tinham kills no Bounty Hunter ainda, mas estavam claramente se preparando para algo grande.

O timing era suspeito demais para ser coincidência. Era uma sexta-feira, aproximadamente às 17h no horário dos Estados Unidos, exatamente quando os escritórios da Jagex fecham para o fim de semana. Este seria o momento perfeito para iniciar uma operação de suicide farm, aproveitando a ausência de moderadores humanos para agir livremente por pelo menos 48 horas.

Ao entrar efetivamente na zona de Bounty Hunter, a realidade era ainda mais impressionante. Múltiplas contas level 32 apareciam simultaneamente, e diferentemente do comportamento esperado de bots tradicionais que fogem ao ver PKers, estes tinham uma programação completamente diferente: eles atacavam primeiro.

Descoberta da fazenda de bots

A Mecânica Diabólica dos Bots

A primeira tentativa de combate revelou algo surpreendente. Equipado com uma conta de 10 hit points e 60 ranged em combat level 32, a expectativa era que os bots fugiriam ao detectar um PKer. A realidade foi o oposto absoluto: os bots corriam em direção ao jogador e atacavam agressivamente, como pequenos exterminadores implacáveis.

Estes bots não eram simples NPCs programados para morrer. Cada um carregava darts que causavam até 6 de dano por hit, atacando rapidamente. Com apenas 10 hit points, qualquer jogador podia ser eliminado em dois golpes consecutivos. A primeira morte veio exatamente assim: dois hits de 6 em sequência, aproveitando o lag da conexão australiana.

O comportamento era intrigante. Os bots atacavam ferozmente, mas de repente perdiam interesse e recuavam. Havia claramente uma lógica de programação complexa por trás dessas ações, algo muito além dos bots comuns encontrados no jogo. Cada bot tinha 35 hit points e comia food automaticamente sempre que a vida caía abaixo de 90%, tornando-os alvos extremamente resistentes.

Evoluindo para Enfrentar a Ameaça

A solução óbvia era evoluir. Horas foram gastas em rock crabs, treinando de 60 para 61 ranged para equipar uma rune crossbow com Ava’s accumulator. O plano era usar enchanted dragonstone bolts para dar specs devastadores e eliminar os bots rapidamente, além de subir para 20 hit points para evitar morrer em dois hits.

Durante o treinamento, outro mistério surgiu. Aleatoriamente, os bots saíam do bank chest e quebravam teleport tablets, desaparecendo instantaneamente. Seguindo cada bot que teleportava, testando Varrock, Lumbridge, Camelot e Falador, nada foi encontrado. Eram 30 minutos de pura confusão tentando descobrir para onde essas contas estavam indo.

Com o upgrade completo, equipado com 50 milhões em gear, as primeiras kills começaram a cair. Cada bot dropava exatos 60k em cash, e o padrão começou a fazer sentido. Os bots eram programados para riscar pelo menos 50k porque isso fazia o EP (Earning Potential) subir duas vezes mais rápido no Bounty Hunter, 4% por minuto ao invés de 2%.

A Build Perfeita: Twin Flame Staff

Após pesquisar extensivamente sobre o meta atual de low-level PKing, uma build específica se destacava: twin flame staff mages eram consideradas absurdamente overpowered. A criação foi meticulosa: uma conta com apenas 13 hit points para evitar ser two-shot pelos bots, 70 magic para equipar occult necklace e twin flame staff, capaz de conjurar fire wave com boost de imbued heart.

O resultado foi devastador. O twin flame staff faz você atacar duas vezes simultaneamente. O primeiro cast acertou um bot por 33 e 13, totalizando 46 de dano, quase o máximo possível de 47. Em apenas 5 minutos, 10 bots haviam sido eliminados. A taxa de lucro era estimada entre 4 a 5 milhões de GP por hora, e isso era apenas matando bots aleatórios.

A verdadeira mina de ouro estava em matar targets. No Bounty Hunter, quando você mata seu target designado, os drops são significativamente melhores. O problema é que os bots tinham uma mecânica específica para evitar isso: quando se tornavam target de um jogador real, imediatamente corriam para o lobby e se suicidavam usando venom sack, resetando o sistema e evitando dar loot valioso.

Desvendando o Sistema Completo

A peça final do quebra-cabeça veio ao observar comportamentos estranhos. Bots apareciam magicamente em locações específicas dentro da zona de Bounty Hunter, não nos spawn points normais da barreira. Outro bot aparecia imediatamente, matava o primeiro, e então deslogava e relogava, reaparecendo no lobby com segurança.

A resposta estava nos teleport to target tablets. Estes itens exigem um scroll que custa aproximadamente 10 milhões de GP para serem usados, permitindo teleportar diretamente para seu target. Os bots estavam usando esta mecânica caríssima porque o retorno financeiro justificava completamente o investimento. A Wiki do Runescape estava até incorreta sobre as restrições destes tablets, afirmando que só funcionavam dentro do lobby, quando na verdade funcionavam em qualquer lugar fora de combate.

Usando esta mesma estratégia, foi possível atingir tier 10 emblems rapidamente. Cada 10 kills de target geravam aproximadamente 2 milhões em valor, com cada kill individual valendo cerca de 200k considerando pontos de Bounty Hunter e loot crates. Os bots mais antigos já tinham 200 target kills cada, o que significava que cada bot individual havia gerado cerca de 40 milhões de GP em apenas 24 horas.

O Império Revelado e a Traição

Em um momento de descuido, após já ter eliminado cerca de 90 bots e estar completamente no automático, um erro fatal aconteceu. Ao teleportar para um target sem prestar atenção, o destino era um player level 38 chamado Fish Finger, que rapidamente derrubou a conta com um obby maul. Havia sido estabelecido anteriormente uma “trégua” com este jogador, mas mensagens suspeitas indicavam que algo não estava certo.

A verdade veio à tona quando o próprio dono dos bots entrou em contato, revelando ser um grande fã e confirmando que alguém havia informado sobre a identidade real do mago que estava caçando os bots. O culpado foi Fish Finger, quebrando a confiança estabelecida e revelando informações para o operador da fazenda.

O operador dos bots foi surpreendentemente aberto sobre sua operação. Ele comandava 20 bots simultaneamente, operando especificamente de sexta à noite até segunda de manhã, apenas quando o mundo australiano de Bounty Hunter estava na rotação. Durante a semana, os bots eram banidos rapidamente por processos manuais de moderação, mas nos fins de semana, com os escritórios da Jagex fechados, eles tinham liberdade total para operar.

Os Números Assustadores

As estatísticas reveladas eram chocantes. Em apenas 40 horas de operação, 20 contas geraram 1.2 bilhões de GP, o que equivale a aproximadamente 1.5 milhões por hora por conta. De sexta à noite até segunda de manhã, um único fim de semana rendia cerca de 2 bilhões de GP. E isso era apenas o começo, o operador planejava escalar ainda mais na semana seguinte.

Porém, havia uma preocupação legítima: quanto mais contas operassem, mais o preço dos bounty hunter teleport scrolls cairia no Grand Exchange, potencialmente tornando o método menos lucrativo. A solução alternativa era ainda mais rentável: oferecer serviços de boosting para players legítimos.

Investigações revelaram servidores no Discord especializados em boosting de Bounty Hunter, cobrando entre 800k e 2 milhões de GP por kill dependendo do combat level do cliente. É importante ressaltar que boosting é extremamente banível no Runescape, seja feito com bots ou manualmente, mas a demanda claramente existe e pessoas estão dispostas a pagar valores absurdos por este serviço.

A Engenhosidade Técnica

Um detalhe técnico particularmente fascinante foi revelado: o criador dos bots não sabia como implementar um servidor central para coordenar a comunicação entre as contas. A solução foi brilhantemente simples, porém efetiva: quando dois bots recebiam um ao outro como targets, cada um digitava um número aleatório entre 1 e 1 milhão em um clan chat específico. Dependendo de qual número era maior, um bot matava o outro.

Esta solução improvisada, apesar de tecnicamente inferior a um sistema de servidor dedicado, funcionava perfeitamente para os propósitos da operação. Era possível entrar no clan chat e observar centenas de números sendo digitados por segundo enquanto os bots coordenavam entre si quem viveria e quem morreria.

O Alerta e as Consequências

Um aviso importante emergiu durante a investigação: múltiplos players que tentaram caçar estes bots foram banidos posteriormente. O operador da fazenda confirmou que vários jogadores haviam sido penalizados após atacar suas contas. A Jagex aparentemente implementou algum tipo de sistema de detecção que bane contas associadas a estas atividades, mesmo que sejam jogadores legítimos apenas tentando combater os bots.

A solução para este problema crônico parece absurdamente simples: remover o mundo australiano de Bounty Hunter. Este servidor específico tem sido usado exclusivamente para botting e boosting desde sua implementação, servindo praticamente zero propósito legítimo. Eliminando este mundo específico, aproximadamente 98% deste problema seria resolvido instantaneamente.

Reflexões Finais

Esta investigação revela camadas profundas sobre o estado atual do combate entre desenvolvedores e botters no Runescape. A sofisticação das operações de gold farming atingiu níveis que seriam inimagináveis anos atrás. Não são mais scripts simples repetindo ações básicas, mas operações coordenadas com lógica complexa, timing estratégico e até mesmo atendimento ao cliente através de serviços de boosting.

O que mais impressiona é a adaptação constante. Ao identificar que moderação manual é o principal risco, simplesmente operando nos fins de semana quando os escritórios estão fechados, os botters encontraram uma janela perfeita de oportunidade. Ao usar mecânicas caras como teleport to target tablets, demonstram que o retorno financeiro justifica qualquer investimento inicial.

A Jagex enfrenta um desafio monumental. Sistemas automáticos são contornados através de timing estratégico, e sistemas manuais não podem operar 24/7. Enquanto mundos específicos como o australiano de Bounty Hunter continuarem existindo sem propósito legítimo real, eles servirão como paraísos para operações como esta.

Para os jogadores comuns, o recado é claro: evite se envolver com estas situações, pois o risco de ban é real mesmo para quem está tentando combater os bots. E para a Jagex, a solução parece óbvia: eliminar os pontos fracos explorados sistematicamente, começando pela remoção de mundos que servem apenas para facilitar atividades ilegítimas.

Esta história serve como lembrete de que o jogo do gato e rato entre desenvolvedores e botters está longe de acabar, e a cada dia novas táticas emergem de ambos os lados desta guerra silenciosa que acontece nos servidores do Runescape.

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