Uma discussão que sempre retorna à comunidade de Tibia ganhou novos contornos recentemente: os servidores piratas, conhecidos como OTS (Open Tibia Servers), estariam realmente superando o jogo oficial em popularidade? Os números apresentados são surpreendentes e merecem uma análise mais profunda sobre o que isso significa para o futuro do MMORPG mais antigo do Brasil.
Segundo dados compartilhados pela comunidade, o Tibia Global possui atualmente cerca de 17 mil jogadores online simultaneamente. Em contrapartida, apenas o servidor Rubinot, um dos OTS mais populares, concentra quase 10 mil jogadores. Essa proporção levanta questões importantes sobre as escolhas da CipSoft e o que os jogadores realmente buscam em 2026.
O Dilema da Jogabilidade Manual
A grande questão que divide opiniões é a filosofia de jogo adotada pela CipSoft. O Tibia mantém sua essência de jogabilidade 100% manual, onde cada cura, cada ataque e cada ação precisa ser executada pelo jogador. Para muitos veteranos, isso representa a alma do jogo. Porém, para uma parcela crescente da comunidade, essa mecânica se tornou um obstáculo intransponível.
A realidade é que o perfil do jogador de Tibia mudou drasticamente. A maioria tem mais de 25 anos, possui trabalho, família e compromissos que limitam drasticamente o tempo disponível para o jogo. Jogar um Knight por horas fazendo rotação de magias manualmente deixou de ser divertido para se tornar exaustivo para muitos. Há até relatos de jogadores que desenvolveram lesões por esforço repetitivo e precisaram abandonar o jogo por questões de saúde.
A Resposta dos Servidores Piratas
Os OTS entenderam essa demanda e ofereceram uma solução: sistemas de cura automática, rotação de magias assistida e, em alguns casos, até mesmo cave bots. O resultado? Jogadores que se divertem mais, jogam mais tempo e, consequentemente, gastam mais dinheiro. Há relatos de jogadores que investem cerca de R$ 100 mensais em servidores piratas, recursos que poderiam estar sendo direcionados para a CipSoft.

O Rubinot, por exemplo, permite o uso de auxiliadores que fazem parte das funções repetitivas, mas não transformam o jogo em algo completamente automático. O jogador ainda precisa se adaptar, tomar decisões estratégicas e estar presente, mas sem o desgaste físico da repetição constante.
Os Números Contam uma História Diferente
Por outro lado, uma análise mais aprofundada dos dados disponíveis no Guild Stats revela um cenário interessante. Em julho de 2015, o Tibia Global mantinha uma média de 10 a 11 mil jogadores online. Avançando para 2026, essa média se mantém entre 9 e 14 mil jogadores, com picos de até 20 mil. Ou seja, mesmo após uma década, a CipSoft conseguiu manter sua base de jogadores relativamente estável.
Essa estabilidade, embora não represente crescimento explosivo, é uma métrica extremamente positiva para qualquer empresa no mercado de MMORPGs. Poucos jogos conseguem manter sua base de jogadores por tanto tempo sem grandes oscilações. Os números financeiros anuais da CipSoft também demonstram consistência, sugerindo que o modelo de negócio atual continua sustentável.
O Que Isso Realmente Significa?
A questão não é necessariamente que a CipSoft está perdendo jogadores para os OTS. O mais provável é que os servidores piratas estejam resgatando um público que já havia abandonado o jogo oficial em algum momento, seja recentemente ou há anos. São jogadores que amam o universo de Tibia, mas não conseguem mais se adaptar às exigências da jogabilidade tradicional.
Existe espaço para ambos coexistirem. Os OTS oferecem uma experiência mais casual e acessível, enquanto o Global mantém a essência hardcore que conquistou gerações de jogadores. Cada um atende a um público específico com necessidades diferentes.
Possibilidades para o Futuro
Alguns jogos web3 modernos têm adotado uma abordagem interessante: tarefas repetitivas são executadas automaticamente pelo sistema, enquanto decisões estratégicas e momentos importantes ficam sob controle do jogador. Essa filosofia equilibra acessibilidade com engajamento, sem transformar o jogo em algo completamente automático.
A CipSoft possui o TIB, sua própria criptomoeda, o que sugere interesse em explorar novas tecnologias. Seria esse um caminho para modernizar a experiência sem descaracterizar o jogo? É uma possibilidade que permanece em aberto.
A grande questão é: a CipSoft deveria criar servidores oficiais com mecânicas facilitadas? Manter a pureza do jogo original é fundamental para muitos jogadores veteranos, mas oferecer alternativas oficiais poderia trazer de volta aqueles que migraram para os OTS. Não se trata de transformar o Global em um servidor pirata, mas de reconhecer que existem diferentes perfis de jogadores que merecem ser atendidos.
O debate está longe de ter uma resposta definitiva. O que fica claro é que tanto a CipSoft quanto os OTS conquistaram seus espaços, cada um atendendo a necessidades específicas de uma comunidade apaixonada que, acima de tudo, só quer continuar explorando o mundo de Tibia da forma que melhor se adequa às suas realidades.