Imagine combinar sua paixão por programação com um dos MMORPGs mais clássicos de todos os tempos. Foi exatamente isso que aconteceu nesta incrível jornada por RuneScape no modo Group Ironman, onde criatividade e código se encontraram para criar uma experiência única. A proposta era simples em teoria, mas complexa na execução: progredir no jogo enquanto desenvolvia scripts personalizados para automatizar tarefas tediosas, tudo isso mantendo o espírito competitivo e desafiador do modo Ironman.

O que começou como uma aventura em grupo rapidamente se transformou em uma saga solo repleta de desafios técnicos, mortes frustrantes e soluções de programação absolutamente geniais. Esta é a história de como a persistência, criatividade e algumas linhas de código transformaram a experiência tradicional de RuneScape em algo completamente novo.

O Início da Aventura e Primeiros Desafios

A jornada começou na Tutorial Island com o grupo fazendo safe spot em um urso usando trabalho em equipe, seguido por uma tentativa de tirar foto em grupo que levou impressionantes 10 minutos. O modo Group Ironman impõe uma restrição crucial: todos os recursos devem ser coletados pelos próprios jogadores do grupo, sem possibilidade de comércio com outros jogadores externos.

Logo de cara, surgiu o primeiro dilema financeiro quando foi decidido que o dinheiro do YouTube seria investido no grupo para comprar ossos essenciais para o treinamento inicial. Ironicamente, isso aconteceu antes dos anúncios do canal serem desmonetizados por mais de 2 meses, criando uma situação financeira digna de um verdadeiro ironman na vida real.

Automação Inteligente: O Labirinto do Old Man

Um dos primeiros scripts desenvolvidos foi para otimizar o random event do Mysterious Old Man. Normalmente, os jogadores simplesmente correm até o centro do labirinto o mais rápido possível para coletar as recompensas. Porém, foi descoberto um método alternativo: ao clicar nos baús e aguardar exatamente 60 segundos antes de clicar novamente, era possível obter recompensas muito superiores.

Ao invés de usar um simples loop de 60 segundos, o script foi desenvolvido com um scanner de pixels que identificava o baú, tornando o processo mais sofisticado e eficiente. O sistema abria o baú imediatamente após ele fechar, maximizando a eficiência de cada interação. Essa solução exemplifica perfeitamente a filosofia por trás do projeto: não apenas automatizar, mas fazer isso da forma mais elegante possível.

Programação encontra RuneScape

A Quest Tourist Trap e Lições de Atenção

As quests são fundamentais para desbloquear áreas, itens e levelar skills de forma eficiente no início do jogo. A Tourist Trap, em particular, se tornou um marco memorável por todas as razões erradas. Após matar o general conforme instruído e pegar sua chave, houve um erro crítico: ignorar completamente o texto que pedia para desequipar todos os itens de combate.

O resultado? Prisão imediata. E pior: foi necessário matar o general novamente para escapar. O problema é que ele tinha bastante vida e a comida estava acabando rapidamente. Se morresse, toda a jornada teria que ser refeita. Com a mecânica de acerto baseada em RNG (random), a tensão aumentou quando cinco acertos consecutivos causaram apenas 1 de dano cada.

A salvação veio através de uma técnica chamada safe spot, onde posicionando o personagem corretamente, o inimigo não consegue alcançar ou atacar. Mesmo assim, a comida acabou e o general ficou com 7 HP enquanto o dano máximo possível era 8. Foi um verdadeiro jogo de sorte até finalmente derrotá-lo e concluir a quest.

Pathfinding Revolucionário: Transformando 3D em 2D

Um dos desafios de programação mais interessantes surgiu ao criar um sistema de movimentação automática entre a área de mineração e o banco em Varrock. O problema não era apenas clicar em pontos aleatórios, mas criar um sistema que pudesse navegar consistentemente sem repetir o mesmo caminho e sem usar coordenadas fixas que poderiam falhar.

A solução foi absolutamente brilhante: transformar o jogo 3D de RuneScape em um ambiente 2D controlado. Usando o plugin de câmera do RuneLite, foi possível dar zoom máximo e ajustar o ângulo para uma visão completamente top-down, alinhada com as direções cardeais. Isso criou uma perspectiva consistente e previsível.

Mas o golpe de mestre veio na implementação do pathfinding. Ao invés de usar coordenadas fixas ou acessar a memória do jogo internamente, o sistema marca tiles específicos com cores extremamente vibrantes que não existem naturalmente na tela. O script então identifica essas cores únicas, clica aleatoriamente dentro da área marcada, aguarda o personagem chegar e repete para o próximo tile.

Essa abordagem é completamente generalizada e pode ser usada para qualquer área do jogo, bastando marcar os tiles desejados. Foi investido mais tempo desenvolvendo esse sistema do que efetivamente usando-o, mas o resultado foi uma ferramenta versátil e elegante que poderia ser aplicada em inúmeras situações.

Mineração Eficiente e o Objetivo Triplo

A mineração apresentou desafios únicos. Inicialmente, o plano era fazer power mining de ferro, dropando todos os minérios. Porém, em um account de Ironman, esses recursos são valiosos e precisam ser guardados para smithing. Isso significava que todo o grinding de combate feito para alcançar nível 29 e evitar scorpions agressivos foi parcialmente desperdiçado.

A descoberta de Varrock Mining Guild mudou tudo. Com três veios de minério próximos a um chest para depósito, era possível minerar e armazenar recursos de forma muito mais eficiente. O único problema era a exigência de nível 60 em Mining para acessar a área, mas isso foi contornado com um boost temporário.

O plano mestre envolvia levelar três skills simultaneamente: Woodcutting nas maple trees, Fletching transformando madeira em arcos, e Magic usando High Alchemy nos arcos criados. Não era o método mais eficiente do jogo, mas certamente era criativo e satisfatório.

Scripts Adaptáveis: De Mineração a Firemaking

O script de mineração foi engenhosamente adaptado para Firemaking. Como ambas as atividades compartilham mecânicas similares (clicar em recursos, limpar inventário, repetir), o sistema de scanning já desenvolvido funcionou perfeitamente. A diferença estava na implementação do pathfinding para fazer o personagem se mover até um tile específico e então criar uma linha de fogueiras.

Uma melhoria importante foi implementar reconhecimento de imagem para limpar o inventário, ao invés de usar posições fixas. Isso evitava bugs quando drops especiais apareciam, tornando o sistema mais robusto e confiável. O resultado foi um sistema completamente automático de woodcutting e firemaking que funcionava de forma suave e natural.

O Desastre do Wintertodt e a Ban Wave

Wintertodt é uma atividade de Firemaking que oferece excelentes recompensas, mas requer preparação cuidadosa. Após conseguir o nível necessário e obter warm gear, foi necessário fazer a perigosa jornada até o local no meio do mapa. Morrer significaria repetir toda a caminhada.

Porém, o verdadeiro desastre não veio do jogo, mas da detecção de padrões de Jagex. Três contas do grupo foram banidas: a conta de gathering, uma conta que estava botando Hunter, e eventualmente a conta principal também foi flagrada. O problema não foi detecção direta dos scripts, mas sim o tempo excessivo de jogo que criou padrões suspeitos.

Uma conta rodou o script de mineração por 15 horas consecutivas, o que acionou todos os alarmes do sistema anti-bot. RuneScape não detecta apenas através de verificações técnicas, mas também analisa padrões de comportamento e tempo de jogo. Jogar por períodos muito extensos inevitavelmente levanta bandeiras vermelhas.

Quests Complexas e Técnicas Avançadas

A quest para desbloquear a região favorita do jogador exigiu múltiplas sub-tarefas. Uma delas envolvia matar um dragão usando apenas uma rune pickaxe, com comida limitada. A técnica de flinching foi empregada: esperar a barra de HP do inimigo desaparecer completamente antes de dar o próximo hit, conseguindo assim golpes gratuitos sem receber dano.

Infelizmente, não esperar o tempo correto resultou em morte, perdendo todo o progresso. E como Ironman, se outro jogador acerta o monstro, o loot não é recebido. Bots na área complicaram ainda mais a situação, ocasionalmente “ragando” (atacando os monstros alheios). Foram necessários múltiplas tentativas e mais de meia hora para finalmente derrotar o dragão.

Um momento particularmente frustrante aconteceu quando, após completar uma longa cadeia de requisitos para uma quest, foi descoberto que simplesmente treinar Magic normalmente teria sido muito mais rápido. Mas como dizem, você vive e aprende.

O Plano Mestre de Triple Skilling

Finalmente, após todo o grinding de Woodcutting, Fletching, Mining, Smithing e Agility, o momento chegou. Com High Alchemy desbloqueada, era possível executar o plano original: cortar maple trees, transformá-las em arcos através de Fletching, e então usar High Alchemy para convertê-los em dinheiro enquanto treinava Magic.

O resultado foi satisfatório não pela eficiência pura, mas pela realização de criar um método único de progressão que combinava múltiplas skills de forma criativa. Havia algo poeticamente RuneScape sobre todo o processo.

Reflexões Finais e Lições Aprendidas

Este projeto levou mais de um mês e meio para ser completado, com inúmeros desafios tanto no jogo quanto na programação. A realidade do modo Group Ironman é que, após os primeiros dias, a maioria dos membros do grupo parou de jogar, transformando a experiência em uma jornada majoritariamente solo.

A lição mais importante? Automação é uma ferramenta poderosa, mas deve ser usada com sabedoria. Tempo excessivo de jogo, mesmo com scripts bem feitos que não são tecnicamente detectados, eventualmente chama atenção. O sistema anti-bot de RuneScape é sofisticado o suficiente para identificar padrões anormais de comportamento.

Para quem quer jogar RuneScape de forma legítima, o conselho é simples: instale o RuneLite, explore os plugins de qualidade de vida, faça quests e aproveite a jornada. O jogo oferece milhares de horas de conteúdo genuinamente divertido, mesmo sem qualquer tipo de automação. E para quem não tem tanto tempo para grind, existe até Melvor Idle, uma versão idle inspirada em RuneScape que oferece progressão mais relaxada.

A combinação de programação e gaming mostrou ser tanto um desafio técnico fascinante quanto uma forma completamente nova de experimentar um jogo clássico. Cada problema tinha múltiplas soluções possíveis, e escolher a mais elegante era tão satisfatório quanto completar qualquer boss no jogo.

comments powered by Disqus